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Saúde mental infantil: reconhecer, entender e respeitar a dor e o sofrimento das crianças

Se você identificar que seu filho está sofrendo com manifestações de transtornos ou neuroses, não se desespere.

Cosems

A saúde mental deve ser uma prioridade no cuidado, tanto para adultos quanto para as crianças. Elas sofrem com o acometimento de transtornos e neuroses em diversas etapas da infância. Alguns mais leves, outros mais severos, sendo a maior incidência de casos manifestados por crianças em idade entre 2 a 12 anos. Pesquisas apontam ainda que 40% das crianças em idade escolar apresentam algum tipo de distúrbio psíquico. Em muitas situações, por não possuírem ainda elementos básicos de comunicação, a criança pede socorro através da manifestação de comportamentos desajustados que levam os pais ou responsáveis a confundirem, por exemplo, um transtorno com uma birra. Porém, a diferença entre a birra e a evidência de algum transtorno psíquico, certamente, está na intensidade. A birra será manifestada em momentos específicos, já um transtorno destaca-se por influências mais frequentes.

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Sinais de ansiedade, angústia, medo excessivo, choro sem explicação, alterações bruscas de humor, oscilação de apetite, irritabilidade, agressividade incomum, descontrole do sono e a enurese (xixi na cama) constante, são alterações comportamentais que acionam o sinal de alerta demonstrando que algo está em desequilíbrio. As emoções e sensações internas passam a ser manifestadas pelo corpo, já que se expressar pela linguagem nem sempre é de domínio das crianças.

Atenção aos sinais emitidos

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Por este motivo, é muito importante estar atentos aos sinais emitidos por elas e, não hesitar em buscar ajuda de um profissional adequado. Se não ajudarmos e pararmos para olhar estes sintomas com mais cuidado, podemos ter no futuro, adolescentes e adultos arrogantes e inseguros, além de apresentarem infinitas manifestações psicológicas em descontrole.

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A infância tem como característica o mundo das descobertas, o turbilhão de emoções não compreendidas com intensidades muito grande, onde nem sempre é possível contar com uma perfeita condição cognitiva de se expressarem em palavras. Neste sentido, a observação destas mudanças na fala, no gestual e no comportamento de forma geral, é imprescindível para auxiliar os pais a perceberem a necessidade de uma intervenção psicológica no sentido de resgatar o equilíbrio de uma possível sobrecarga emocional. Toda alteração de comportamento infantil passa a ser considerada um problema disfuncional quando impede a criança de fazer tarefas simples, como: brincar com outras crianças da mesma idade; recusar-se a ir para a escola; evitar estar em grupos de amiguinhos; apresentar grande dificuldade para dormir ou se concentrar. Enfim, quando ser criança deixa de ser uma experiência leve e se enche de desconfortos. 

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Transtorno de Ansiedade

Um dos transtornos que mais afetam nossas crianças é o Transtorno de Ansiedade. A ansiedade é um estado em que a pessoa se sente preocupada, temerosa e nervosa. Ela é uma espécie de alerta em que, ao menor sinal de um tipo de ameaça, a mente aciona um alarme no subconsciente objetivando afastar o indivíduo de qualquer perigo. É uma reação natural do corpo contra o estresse. Um estado emocional caracterizado por tensão, preocupação e pensamentos ruins. E, no caso das crianças, esse estado emocional pode se repetir da mesma forma que no adulto. Elas também demonstram ansiedade com uma certa frequência. Porém, nas crianças, os medos e ansiedades estão associados ao processo de aprendizado de sua fase de vida – e o mais correto é que. a medida que vão mudando de fase e idade, essas ansiedades, dúvidas e medos tendem a desaparecer naturalmente. 

Em crianças tímidas, por exemplo, que sentem muito medo, fazem muita birra e regridem a fases anteriores – começam a fazer xixi na roupa, roem as unhas ou chupam dedo -, possivelmente são crianças ansiosas. Embora seja natural apresentarem essas atitudes em determinadas circunstâncias, se você notar que em quase todas as situações seu filho reage de um modo “diferente” do esperado para a idade dele, é provável que tenha um traço de descontrole psíquico. Toda criança pode apresentar um comportamento agitado.

A inquietação é um traço natural em qualquer criança. O ponto conflitante é saber diferenciar quando o comportamento faz parte da essência dessa criança ou quando existe nele um sofrimento enraizado. O mais importante é não entrar em paranoia e não rotular a criança, buscando identificar os sinais e agindo normalmente, acolhendo e orientando. O diagnóstico só pode ser emitido depois de verificada a recorrência dos episódios dentro de um determinado período. Além disso, caso a recorrência seja observada e seja identificado que a criança possui algum traço de desajuste emocional, ou mesmo um transtorno de ansiedade, convém procurar um profissional, pois talvez seja necessário intervir até com medicação. Sabemos que tudo em excesso é prejudicial, o equilíbrio é o ponto de partida para os pais entenderem o grau de sofrimento dessa criança e, assim, buscar ajuda.

Os transtornos emocionais infantis podem. sim, ser tratados se tivermos sensibilidade em perceber porque essa criança está enfrentando esse problema e quais as causas que estão agravando esse processo. Ações simples de acolhimento, diálogo, cumplicidade, e o impulsionamento de coragem e incentivo, farão com que a criança recupere sua autoestima e consiga interagir melhor com outras crianças a sua volta – bem como com os adultos. Mas muito cuidado também para não estar abarrotando a rotina deles de atividades e, assim, impedindo a criança de ser criança. Ela tem necessidade do tempo livre, das brincadeiras e da socialização que irão contribuir para a formatação de sua personalidade.

Não se desespere ao identificar as manifestações

Portanto, se você identificar que seu filho está sofrendo com manifestações de transtornos ou neuroses, não se desespere. O primeiro passo é toda a família se envolver para compreender melhor o que se passa. Os pais devem ficar tranquilos, pois não é sempre que um tipo de transtorno é sinônimo de medicamento ou de internação. Muitos pedem tratamentos simples que precisam apenas de um suporte e uma conduta diferenciada da família e de quem acompanha esta criança no dia a dia, seja na escola ou em seu ambiente familiar. Muito cuidado para não reforçar o comportamento em desequilíbrio. Demonstre carinho e procure o diálogo e o acolhimento. 

O bom gerenciamento das emoções não significa represá-las. A criança precisa encontrar abertura suficiente para sentir medo, angústia, raiva, tristeza, alegria e euforia. Em vez de dizer “não chore” ou “controle-se”, acolha os pequenos, procurando compreender as razões deste comportamento e ajude-os a dar respostas adequadas para cada situação, tomando o cuidado para não invadir o limite desta criança, o que pode torna-la dependente e passiva. Estimule a reflexão e o diálogo, sendo um facilitador do autoconhecimento. Além disso, através da sensibilidade, perceba a necessidade de um acompanhamento psicológico adequado – quando ela apresentar sinais de desequilíbrio emocional e psíquico. Enfim, lembre-se: quando a criança tem dificuldades, toda a família tem também – e por trás de um comportamento sempre existe uma necessidade.

Dra. Andréa Ladislau

Psicanalista, Doutora em Psicanálise e membro da Academia Fluminense de Letras

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Escrito por Anna Müller

Bastante ativa nas redes sociais, escrevo conteúdo sobre os mais diversos assuntos para a plataforma i7 Network.